É possível ser feliz (e não se sentir culpado) em meio à pandemia?

(6Minutos) – O Brasil está caótico, o mundo está caótico. Pandemia, racismo, tensão política. Mas pode ser que, no que diz respeito às circunstâncias particulares, algumas pessoas se sintam bem. Quem teve a atividade profissional preservada e sabe que familiares e amigos estão com saúde certamente se sente privilegiado.

Será que é possível se considerar feliz em meio ao que estamos vivendo? Quem se sente assim pode expressar isso sem parecer egoísta, insensível ou desrespeitoso, já que tantas pessoas estão sofrendo?

Talvez o primeiro passo seja discutir o próprio conceito de felicidade. O doutor em psicologia clínica Luiz Hanns lembra que a busca da felicidade tal como a conhecemos hoje é um tema recente para a humanidade. Até a década de 60, o que havia era muito mais a noção de obrigações a cumprir. A vida só valia a pena para quem contemplasse uma série de expectativas – ser um bom filho, um bom marido, uma boa esposa, criar os filhos, seguir uma profissão, ser temente a Deus, deixar um patrimônio.

Pouco importava como as pessoa se sentia intimamente em meio a tudo isso. O que valia era a visão que o mundo teria sobre seu legado. “Se você perguntasse ao seu bisavô ou a sua bisavó o que eles desejavam para um filho recém nascido, as respostas seriam: que seja corajoso, que seja cristão, que seja trabalhador, que seja piedoso, que cuide da família”, diz Hanns. “Hoje, a resposta mais comum diante da mesma pergunta é ‘só quero uma coisa: que seja feliz'”.

A noção de felicidade foi, portanto, se deslocando cada vez mais para o indivíduo. Isso indica que estamos falando de um estado muito mais relacionado às condições internas da pessoa do que às influências externas. As pesquisas de Psicologia Positiva reforçam essa visão, ao concluir que 60% da sensação de felicidade depende de genética e condições biológicas. Podemos agir apenas nos outros 40%”.

Além do mais, se fôssemos esperar o mundo ficar perfeito para nos sentirmos felizes, isso jamais aconteceria. Sempre há flagelos como guerras, desigualdade, fome, acidentes, tragédias naturais, confusões políticas, ameaças à democracia. Epidemias, como a atual, são apenas mais um item nessa longa lista.

Dar um grande peso às condições externas reforça um equívoco frequentemente cometido quando as pessoas pensam em felicidade: a ideia de que se trata de um ideal a ser buscado em algum momento do futuro distante, quando todos os aspectos da vida finalmente estarão em equilíbrio. Esse momento mágico, infelizmente, nunca vai acontecer. Sempre teremos problemas, e até certo ponto é até bom que isso exista. Afinal, a monotonia também é um obstáculo para a felicidade – tanto que as taxas mais altas de suicídio ocorrem em alguns dos países mais desenvolvidos do planeta.

Para desassociar a felicidade da ideia do mundo perfeito, Hanns sugere até que o termo seja substituído por assemelhados que deem mais a ideia de uma sensação momentânea, transitória, como “alegria de viver”.

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