‘Quadro social brasileiro é absolutamente dramático’, diz Eduardo Giannetti

(G1) – Para o economista e filósofo Eduardo Giannetti, o quadro social do Brasil é “absolutamente dramático” e pode se transformar em uma catástrofe, caso novas medidas não sejam adotadas.

Segundo ele, o governo precisa atuar no curtíssimo prazo, no que classificou de “o drama da fome”. Mas Giannetti também defende ações mais estruturais, de médio e longo prazos, com foco na geração de emprego.

“Nós não vamos reduzir a nossa desigualdade secular e obscena com transferência de renda. Essas políticas são bem-vindas e válidas, mas têm caráter emergencial”, afirma. “O mais importante é a volta do emprego. Não há política social melhor do que a geração de vagas.”

O economista destacou a alta taxa de desemprego, que atinge mais de 14 milhões de pessoas, e de desalento, que reúne outros seis milhões de brasileiros, os quais desistiram de procurar uma ocupação. “Isso vai exigir políticas públicas bem focalizadas, que consigam atenuar o drama de uma privação material tão séria como essa”, afirmou.

Para Giannetti, o país pode crescer 4% neste ano. Para 2022, a projeção é de uma expansão bem menor, em torno de 2%. Ele se diz cético em relação ao avanço das reformas e alerta: “Temo uma guinada populista (do governo Bolsonaro) em final de mandato, na pressão para maximizar as chances de reeleição.”

A seguir, os principais trechos da entrevista:

  • Qual é o cenário que você traça para a economia neste ano?

As estimativas estão vindo melhores do que se imaginava no final do ano passado. Houve uma recuperação muito forte do PIB brasileiro nos dois últimos trimestres do ano passado. Foi um repique forte. A estimativa provável para o crescimento do PIB neste ano é alguma coisa entre 3,5% e 4%.

Agora, é preciso entender uma coisa muito importante: o grosso desse crescimento em 2021 é o que os economistas chamam de carregamento estatístico. Mesmo que a economia nada cresça, ou seja, se ela mantiver o nível de produção alcançado no final do ano passado, ainda assim o país vai crescer cerca de 3%.

  • Não significa um movimento expressivo, então?

Não. Nós não vamos recuperar o PIB perdido durante a pandemia ainda em 2021. Isso só em 2022. E esse crescimento em 2021 é fundamentalmente o carregamento estatístico do ano passado. Não é crescimento novo, na margem. Se a gente olhar um pouco mais para frente, a expectativa a partir 2022 é muito mais baixa. Estamos falando de um número mais parecido com 2% a 2,5%.

  • Antes da pandemia, o Brasil já vinha colhendo um fraco desempenho do PIB. O que segura o nosso crescimento?

O grande nó brasileiro é o baixo investimento. Não tem crescimento sem investimento. Mas não há confiança com relação às regras do jogo na economia brasileira, para que o investidor privado se anime para fazer apostas de longo prazo, em novas plantas, projetos e negócios. E o setor público está com a sua capacidade de investimento totalmente estrangulada, não tem espaço nos orçamentos, tanto federal como estaduais.

Nós só vamos ter crescimento sustentável quando tivermos condições de investir com o mínimo de previsibilidade com relação ao retorno desses investimentos. Coloque-se na situação de um empresário considerando a possibilidade de um novo negócio que demanda muito capital. Ele não vai fazer essa aposta de longo prazo se não tiver o mínimo de confiança de que vai obter o retorno do capital que está investindo.

  • E as reformas não saem do papel…

É inacreditável que o governo Bolsonaro, já no seu terceiro ano de mandato, sequer tenha apresentado a sua proposta de reforma (tributária). O que ele apresentou foi um pedacinho de uma reforma, juntando dois impostos federais, mas que não dá conta da amplitude da reforma tributária que o Brasil precisa.

  • Há espaço e viabilidade política para aprovar alguma reforma antes das eleições?

Eu não tenho uma avaliação otimista em relação à aprovação de reformas nessa reta final do governo Bolsonaro. Pelo contrário. Eu hoje temo uma guinada populista em final de mandato, na pressão para maximizar as chances de reeleição. O governo Bolsonaro já traiu um compromisso que fez na sua eleição, que era fazer política diferente no Brasil. Não aceitar chantagem do chamado Centrão.

O próximo capítulo desse enredo é a guinada populista fiscal, não a política. É começar a perder qualquer compromisso com o controle do gasto público, tendo em vista a ambição de se manter no poder por mais um mandato. Ainda mais num momento em que surge um candidato que se mostra competitivo, que é o Lula, e que coloca uma concreta alternativa e ameaça à reeleição de Bolsonaro.

  • E como a economia chega em 2022 se o Bolsonaro entrar nesse populismo?

Grandes emoções, aperte os cintos. Mas esse é o pior cenário. Eu não estou cantando essa bola e dizendo que vai ser assim. Eu estou dizendo que é uma ameaça que paira. Eu vou até dizer o seguinte: enquanto tiver o ministro Paulo Guedes à frente no Ministério da Economia, há um anteparo em relação a essa guinada populista fiscal. Há uma defesa, há alguma linha de proteção. Se o Paulo Guedes cair e entrar alguém da chamada ala desenvolvimentista do governo no lugar dele, aí o cenário que eu estava descrevendo começa a ficar mais visível.

  • Há chance de uma terceira via na eleição de 2022?

Eu certamente vejo espaço para isso, mas tem que haver um trabalho muito competente de coalizão, de união de forças. Eu acredito que esse movimento é possível. Até onde eu acompanho as pesquisas, aproximadamente 40% do eleitorado não quer que se repita em 2022 a polarização raivosa Bolsonaro X petismo. Para você mobilizar esses 40%, tem que construir um projeto, tem que construir uma candidatura forte competitiva. Isso eu não estou vendo acontecer ainda no Brasil.

  • No ano passado, o Auxílio Emergencial trouxe uma melhora nos indicadores de desigualdade. Mas essa melhora foi revertida em 2021 e até agravada. Como você avalia esse quadro de desigualdade no pós-pandemia?

O quadro social brasileiro é absolutamente dramático. Eu acho que nós temos que pensar, de novo, em medidas para impedir que ele se torne uma catástrofe social. Agora, o mais importante é a volta do emprego. Não há política social melhor do que a geração de emprego.

Pelo desemprego, que está num nível muito elevado, 14 milhões de pessoas, pelo desalento e pela piora da qualidade do emprego, que nós estamos vivendo no Brasil, essa questão social vai demandar trabalho de desenhar políticas públicas bem focalizadas, que consigam atenuar o drama de uma privação material tão séria como essa.

  • São medidas imediatas ou teriam de ser pensadas coisas mais estruturais?

Uma coisa é uma política emergencial de curtíssimo prazo, uma situação de famílias que estão sem nenhuma condição de obter o mínimo necessário para a sua sobrevivência. E isso tem que ser pensado. O estado brasileiro tem que atuar nessa intenção, no drama da fome. Agora, olhando mais para frente, o que vai dar alento, o que vai melhorar a condição de vida dos brasileiros é o crescimento econômico e a geração de emprego. E isso também tem que ser começado a pensar desde já.

Nós não vamos reduzir a nossa desigualdade secular, obscena, injusta, com transferência de renda. Simplesmente transferindo renda de A para B. Não é assim que se resolveu em nenhum lugar do mundo. Políticas de transferência de renda são bem-vindas, são válidas, mas elas têm um caráter emergencial. O Bolsa Família é uma política de transferência de renda, tem um caráter emergencial. O que vai, de fato, resolver essa questão é a formação de capacidade humana por meio da educação, da saúde, do saneamento, da segurança, etc. E é nisso que nós vamos ter de focar.

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