A mentira mata, escreve Renato Meirelles

(Poder360) – A história é repleta de ironias. No século 14, a Europa foi atingida pela peste negra e teve 1/3 de sua população dizimada, num cálculo aproximado. Em meio ao caos social, a doença do fanatismo também se disseminou. Judeus e muçulmanos, considerados hereges pela Igreja, acabaram perseguidos e mortos, acusados de terem causado a peste.

A ironia é que esse período sombrio foi também o que colocou um ponto final no mundo medieval e abriu as portas da Modernidade. Sem peste negra não haveria Iluminismo.

O obscurantismo não é típico da nossa história. Nos últimos anos, governos de diferentes matizes ideológicas promoveram avanços importantes, como a redução da pobreza e o combate à fome. Também construímos o maior sistema público de saúde do mundo e nos tornamos referência na erradicação de doenças e na organização de campanhas maciças de vacinação. Instituições como o Butantan e a Fiocruz são respeitadas internacionalmente pela excelência do seu trabalho. Todos esses avanços foram possíveis porque as decisões do Estado, embora políticas, obedeciam a critérios técnicos. Entendia-se que a verdade cientifica precisava estar na base da ação dos governantes quando o assunto era saúde pública.

Porém, nos últimos anos, parece que essas lições da história foram esquecidas. Certas autoridades operam em uma lógica de desmonte, não de aprimoramento, do que construímos até então. Decisões importantes deixaram de se basear no conhecimento científico e, como consequência, o simples reconhecimento dos fatos passa a ser objeto de disputa ideológica.

Isso ficou nítido com a persistente negação da gravidade da covid-19 por dirigentes políticos, com a sabotagem às medidas de prevenção recomendadas pelos especialistas, como o uso de máscara e o isolamento social. A CPI da pandemia tem sido didática ao revelar o modus operandi negacionista. E quem aponta o erro nessa atitude é imediatamente desqualificado, como se a defesa dos fatos equivalesse a um posicionamento político partidário.

As fake news têm um efeito devastador na opinião da população sobre a vacina. Pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva mostrou que 53% da população recebeu pelas redes sociais notícias falsas relacionadas aos imunizantes contra a Covid-19. Dos 163 milhões de brasileiros, 78% tem ao menos algum medo associado à vacina. O maior deles, para 65% dos entrevistados, é que a vacina não seja capaz de imunizar contra as novas variantes do vírus. É uma dúvida compreensível e que não chega a levar alguém a recusar a vacina.

Porém, 22,3% dos entrevistados –estamos falando de 36,6 milhões de brasileiros com mais de 16 anos– estão convencidos de que a vacina contra o novo coronavírus provoca alterações no DNA ou que é usada para implantar um chip no organismo. São esses os que se recusam a tomar a vacina. São esses os infectados pelas fake news. Precisamos de imunizante tanto quanto precisamos de verdade.

Existe democracia sem verdade factual? É o que questiona o professor Eugênio Bucci, da ECA-USP, em seu livro, que leva a pergunta na capa. Bucci mostra que não e que corremos perigo.

Por isso, é urgente insistir na necessidade da verdade. Sem ela verdade há planejamento público, tampouco debate político produtivo, no qual diferentes grupos expressam seus pontos de vista sobre premissas aceitas. Também não há recuperação econômica, pois o negacionismo prolonga a pandemia, cria insegurança jurídica e afasta investidores. Por fim, é preciso coragem para chamar a mentira pelo nome. O Brasil só poderá voltar aos trilhos se deixarmos de tratar a negação dos fatos como simples divergência.

O país tem desafios enormes pela frente, que não poderão ser enfrentados sem um necessário resgate da verdade factual. É preciso manter a esperança de que, após esse período tão sombrio, possamos nós também construir um novo Iluminismo.

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